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‘O disléxico pode chegar aonde quiser’

‘O disléxico pode chegar aonde quiser’

Aluno d’O Peixinho compartilha realidade da dislexia em sua página no Instagram

Provavelmente, você já ouviu alguém pronunciar a palavra “dislexia”. Mas saberia explicar o que significa? Embora esse distúrbio acometa entre 5% e 17% da população mundial, segundo dados da Associação Brasileira de Dislexia (ABD), ele ainda é silencioso e invisível aos olhos de muitas pessoas. O conhecido gênio da física, Albert Einstein, era disléxico, assim como o ator e produtor de cinema Tom Cruise, o pintor Vincent Van Gogh, o fundador da Apple, Steve Jobs, e o grande Leonardo da Vinci. Embora essas e tantas outras personalidades tenham sofrido e sofram com o transtorno, ainda falta abordar mais o assunto. Com o objetivo de disponibilizar informações, apresentar alternativas que facilitem a aprendizagem, compartilhar experiências e o dia a dia de uma criança disléxica, Ricardo Brito Junior, aluno d’O Peixinho, criou neste ano a página @crescendocomdislexia, no Instagram.

Os primeiros sinais da dislexia foram percebidos no Ricardo no início do processo de alfabetização, em 2016, pois ele apresentava grande dificuldade no reconhecimento das letras. No meio daquele ano foi iniciada uma investigação ampla junto a profissionais das áreas de oftalmologia, otorrinolaringologia, fonoaudiologia, psicopedagogia e neurologia. Porém, como Ricardo ainda era muito novo (tinha apenas 6 anos), não foi possível fechar qualquer diagnóstico, pois poderia ter apenas imaturidade ou um déficit de atenção, conforme relata a mãe, Fernanda Khater.

No ano seguinte, quando já estava alfabetizado, o garoto foi encaminhado à Associação Brasileira de Dislexia, onde a conclusão foi que ele era uma criança com “risco” para dislexia.

“O ‘risco’ foi apontado, pois segundo estudos médicos, a dislexia só pode ser atestada quando a criança completa 9 anos de idade”, explica a mãe. Então, em fevereiro de 2019, o médico neurologista Clay Brites atestou a dislexia do Ricardo que, na prática, confirmou o que a família já estava vivenciando e, mesmo com certa resistência, já sabia.

Fernanda conta que ao receber o diagnóstico, se sentiu perdida. Então, para poder ajudar o filho, passou a estudar o assunto: “A dislexia do Ricardo foi uma surpresa para todos da família até porque a maior parte dos casos de dislexia é de origem hereditária e em nossas famílias não temos conhecimento de outros casos. Por isso foi uma grande novidade e, a princípio, pouco sabíamos sobre o tema”.

Envolvimento da família

Após o susto da notícia e a partir da evidência de um filho disléxico, tanto ela quanto o esposo passaram a procurar informações sobre o assunto, sempre pensando como poderiam contribuir para o processo de aprendizado do Ricardo. A filha mais velha, Mariana (que não possui dificuldade de aprendizagem), também ajuda o irmão com os estudos. “Percebemos que a participação da família seria de fundamental importância para o desenvolvimento dele”, comenta a mãe.

Mesmo tendo consciência da dificuldade do filho e ouvido do médico que ele não aprenderia do modo tradicional, mas apenas de forma prática e concreta, Fernanda tentou manter o estudo convencional. “O Ricardo lia a matéria ou eu lia para ele, mas pouco ou quase nada era compreendido. Como sempre tive o hábito de brincar com ele, passei a construir cada conteúdo em forma de maquete, cartaz ou brincadeira, e o aprendizado foi surpreendente. E é assim que caminhamos até hoje, usando tudo que possa trazer o conhecimento de forma prática”.

Escola parceira

Segundo Fernanda, o acolhimento d’O Peixinho aos pais e também às dificuldades do Ricardo “foi sensacional”. A escola explicou à família que a dislexia não o impediria de seguir com os estudos e, ao mesmo tempo, não mediu esforços para atender às adaptações sugeridas pelo médico, pelo fonoaudiólogo e pelo psicólogo. Por um tempo ele teve tutora, mas depois não foi mais preciso. As provas são aplicadas em local separado para que ele não se distraia e, quando preciso, recebe auxílio na leitura dos enunciados da avaliação. No período de aulas remotas, inclusive, Ricardo continua fazendo as provas em horários diferentes dos colegas, com acompanhamento da coordenação da escola.

  Informação

Na busca contínua por informação, a família descobriu que dislexia não é só uma dificuldade de aprendizagem, de leitura e escrita, ela vai além. Os disléxicos são dispersos, confusos, têm dificuldade com tabuada, para aprender sequência e gravar os dias da semana, por exemplo. Por outro lado, têm o intelecto preservado, são altamente intuitivos, criativos em respostas e curiosos. 

Para Fernanda, falta conhecimento da população e, sobretudo dos educadores, sobre essa condição de dificuldade de aprendizagem. “A maioria das pessoas nunca ouviu falar ou apenas conhece o tema de forma superficial, não tendo realmente a dimensão das dificuldades que o disléxico pode enfrentar e menos ainda tem conhecimento de que a dificuldade não é impeditivo algum. O disléxico pode chegar aonde quiser, basta ter a intervenção necessária”, ressalta. Ela acredita que se a temática fosse mais abordada e aberta a todos, cada família iria explicar aos seus filhos a importância de valorizar os disléxicos e, consequentemente, impediriam discriminações e adjetivos pejorativos como “lento e preguiçoso”.

Conhecimento e incentivo

Sobre o trabalho de divulgação por meio do Instagram, a mãe comenta que tem sido muito produtivo. A página é seguida por muitos educadores, fonoaudiólogos e disléxicos que deixam recados para o Ricardo e o incentivam a continuar com o projeto. 

“Eu gosto de ter uma página para ajudar outros disléxicos; lá eu dou dicas de como estudo e também de como faço as minhas coisas de forma mais fácil. Quem não conhece esse assunto vai poder saber o que é e aprender a respeitar quem tem dislexia”, comenta o dono do @crescendocomdislexia.

“Vemos que a exposição corajosa dele trazendo explicações do seu jeitinho e de forma sincera atinge muitas pessoas que sequer tinham conhecimento do assunto e que, por causa dos relatos, passaram a se interessar”, observa. A proposta também permitiu à família se conectar com diferentes organizações voltadas à dislexia, havendo, assim, trocas constantes de informações e conhecimento.

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